Gabriela
Diário de viagem de uma jovem profissional de gastronomia, brasileira, que resolveu se aventurar no velho mundo e hoje habita em território francês. O relato das percepções, acontecimentos, alegrias e percalços transcorridos durante nove meses de estágio num restaurante 3 estrelas...
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Carta aos pais
Gabriela
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Lema
Um lema que ganhei da minha mãe:
"Foco na possibilidades e nunca nas dificuldades"
Gostei da frase, é boa, principalmente nesse momento, de dificuldades e possibilidades. É preciso ter foco!!!
Saudades de vocês!
Beijos
É verão!!!
É preciso aproveita ao máximo, por que dias com quase 17 horas de sol, ah, só no verão. E quando ele acaba, hum, é melhor nem pensar.
Ontem foi um típico fim de semana de varão, pela manhã todos (quase todos) do restaurante foram jogar volei na "praia" (na cidade onde moro há uma pequena "praia" de água doce, areia mesmo só na quadra de volei, mas tem um gramado onde as pessoas deitam para tomar sol e um lago onde se banham).
À tarde fomos à piscina, não todos, ficamos num grupo de 7 pessoas.
A piscina era como um pequeno parque aquático, muito bonito, muito organizado, não era para menos, esse parque fica na Alemanha! E foi assim, pisei ontem em terras alemãs! E claro, me senti em casa, com muito sol, banho de piscina, ah, que coisa boa o verão!
Detalhe importante: ninguém zombou da minha cor... que estava branca demais, e depois um pouco vermelha... Quando comentei que o sol estava forte com um francês que tinha perguntado porque eu estava na sombra, ele só respondeu um pouco impressionado: Mas.. de onde vc vem o sol é muito forte... (com aquele ponto de interrogação no semblante).
É sempre difícil acreditarem que sou brasileira, e por mais preconceituoso que isso seja, acaba sendo uma vantagem.
domingo, 18 de julho de 2010
Paris
Foi assim. tudo o que dizem é verdade! Paris é linda, encantadora, apaixonante!
Tudo é bonito, descomplicado, organizado. Pensei: Como gostaria que as grandes cidades brasileiras se inspirassem em Paris!
Aqui tudo funciona, o onibus não atrasa, o transito não pára, não se vê sujeira ou lixo nas ruas, existem ciclovias e pontos de aluguel de bicicleta a cada duas quadras.
O ar é limpo, existem muitas árvores, as praças são muitas e todas bem cuidadas. O povo é educado, e comigo foram todos gentis. Existem mapas por todos os lugares e é quase impossível de se perder.
Amei Paris, gostaria de morar nesta cidade, se não puder, com certeza voltarei, muitas e muitas vezes.
Como tinha apenas um dia pela cidade fiz uma programação enxuta e não me preocupei muito: vou conhecer o que der, o mais importante é que já estou aqui!
Fui de ônibus a Torre Eifel, mas não subi, tinha muita fila, muvuca e não me pareceu boa idéia. Fui para o Arco do Triunfo (de onibus tb) e caminhei pela Champs Elisee. Almocei, tirei fotos no Senna, caminhei até o Musee du Louvre. Vi a Monalisa, e mais centenas de obras de arte de me deixaram impressionada!
Mais uma vez lembrei do Brasil e pensei que os museus brasileiros....
Fui a Gare (estação de trem) para comprar minha passagem para a cidade onde fica o restaurante onde estagiarei. Não teve como não lembrar das rodoviárias brasileiras e da falta que faz linhas de trem de passageiros num país tão grande como o nosso.
Voltei para Bercy (onde fica o hotel em que estava hospedada), jantei uma pizza e acabou o dia.
Cheguei
Foram alguns percalços, mas deu tudo certo.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Contratempos
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Malas prontas
Hoje foi o dia de fechar as malas. Momento de sufoco e alegria!
MEMORIAL - Dezembro de 2008
Nascida no dia 19 de outubro de 1988, recebi o nome de Gabriela Lehmann Loureiro, terceira filha de Marcos e Josiane, fui a filha caçula até os 10 anos, quando nasceu Sabrina, para completar a família que já era grande o bastante para os padrões sociais da época, mas ainda pequena para mim que sonhava tanto com um bebê em casa.
Morei até os 17 anos em Rio Negro, PR, minha cidade natal, quando concluí o ensino médio, fiz alguns vestibulares sem obter resultados satisfatórios, demorei para decidir a carreira a seguir, e quando tinha decidido mudei ligeiramente de foco e entrei para o curso de Comunicação Social – Rádio e Tv, cursei apenas 3 meses, a turma era pequena, a faculdade não correspondeu ao que eu esperava e voltei para a casa de meus pais com poucas certezas a respeito do meu futuro.
Em julho de 2006 me inscrevi para o curso de Gastronomia, com algumas esperanças e muito medo, pois eu estaria definitivamente abandonando minhas convicções de que eu deveria ser jornalista, visto que parecia uma das profissões mais agradáveis, pois além de adorar a leitura e a escrita, minha curiosidade e revolta não eram apenas traços da adolescência, eu sabia que os carregaria para sempre comigo.
Passei na seleção e com todo o apoio e incentivo familiar me mudei para Balneário Camboriú no mês seguinte. Eu nada conhecia de gastronomia, sabia cozinhar alguma coisa, claro, adorava comer e não tinha medo de aprender. As primeiras impressões foram fantásticas, foi paixão à primeira vista, amor ao primeiro toque e profunda admiração ao primeiro aroma.
Esse incrível universo dos prazeres alimentares não me era estranho, no entanto, eu nunca o tinha observado tão de perto, tampouco tinha refletido sobre seus mistérios. Os livros muito me aproximaram das artes práticas, vasculhei toda a biblioteca e li tudo o que parecia interessante. Uma das leituras mais marcantes dessa fase foi “Carême – o chef dos reis e o rei dos chefs” de Ian Kelly, que descreve a trajetória e arte de Antoin Carême, personagem o qual guardo grande estima e admiração.
Lembrando disso agora, penso que talvez não tenha sido coincidência, escolhi o Carême Bistrô para fazer meu estágio. Localizado no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, o Carême é um belo premiado restaurante de comida francesa, possui 12 mesas e tem um serviço longo que não permite atender um número muito alto de clientes por noite. Passei três meses morando no Rio para mexer as panelas, picar os legumes, escolher as verduras, preparar risotos, caldos, cremes, mousses, e entre outras atividades, permanecer quase dez horas por dia na cozinha de Flávia Quaresma, eleita chef do ano de 2007. Flávia se mostrou uma profissional mais que admirável, competente e humana, tenho grande respeito e admiração não apenas por ela, como também por toda a sua equipe que muito me ensinou.
Para expandir meus horizontes desejei saber mais, conhecer outros tipos de cozinha, mesmo que seguindo a mesma linha de cozinha francesa, fui estagiar no Sofitel, um dos hotéis mais luxuosos do Rio de Janeiro, sob o comando do conceituado chef Roland Villard. O mais distante de um bistrô deveria ser um hotel, grande, com muitos funcionários, muitos clientes ao mesmo tempo, centenas de quilos de matéria-prima chegando diariamente... enfim, foi como o esperado, muito diferente de tudo o que eu tinha conhecido até o momento.
Passei por todas as cozinhas do hotel e aprendi muito com os sub-chefs e humildes cozinheiros, egressos dos quatro cantos do país. Por dois meses consegui cumprir a maratona a qual me propus no início dos estágios, trabalhar das 9 às 15 horas Sofitel, pegar o ônibus 434 em Copacabana e descer perto do Carême, caminhar algumas quadras e ver o sol pelas segunda e última vez, pois as 16 horas eu entraria no Carême, onde eu terminaria meu dia assim que saísse o último cliente e a cozinha estivesse limpa, ou seja, depois da meia-noite.
Foi exaustivo, mas valeu a pena cada segundo. Só no Sofiltel, durante o primeiro mês eu percorri as cozinhas do café da manhã, garde manger, açougue, cozinha do bar da piscina, restaurante Atlântis, cozinha central, padaria e a premiada confeitaria do chef Dominique Guerran, que faz a melhor sobremesa de restaurante de hotel do Brasil, segundo a revista Gula, 2007, além dos demais prêmios já recebidos, ele trabalha com chocolate como poucos no país e faz doces incrivelmente belos e saborosos.
No último mês de estágio tive uma rotina mais tranqüila, tendo concluído o estágio no Carême, pude dedicar mais tempo ao hotel, nesse momento trabalhei na cozinha do Le Pre Catelan, o mais belo e caro restaurante que tinha conhecido, também premiado como melhor restaurante francês e melhor restaurante de hotel. Aproveitei também para conhecer mais a fundo a Cidade Maravilhosa e fazer coisas que só uma metrópole permite, como visitar museus, exposições, cinemas, concertos, ou seja, manter uma agenda cultural bastante agitada.
De volta à Universidade, não eram apenas histórias para contar, além das fotos esses meses deixaram uma marca em mim, foi no estágio que dei os primeiros passos da minha carreira profissional, e eu gostei muito disso. Então vieram os trabalhos acadêmicos, relatórios de estágio, projeto de pesquisa e banca prática.
Para o projeto de pesquisa eu escolhi como tema Cartas de Vinho dos restaurantes de Balneário Camboriú, o projeto se desenvolveu com muita leitura, pesquisa e entrevistas, que me trouxeram conclusões a respeito do mercado de vinhos e da importância dessa bebida junto à alimentação. O projeto foi trabalhoso e apesar dos percalços, bem sucedido.
A fase mais dramática veio logo em seguida, a banca prática, onde o aluno deve fazer uma releitura de um prato do estágio e apresentá-lo a uma banca avaliadora. Apresentá-lo significa preparar o prato, do início ao fim, falar sobre ele, se apresentar, empratar e fazer com que a produção seja pelo menos suficientemente bonita, saborosa e bastante elaborada. Minha produção foi Degustação de Sopas, onde apresentei mini porções de vichysoise perfumada com trufas, sopa de cebola em crosta de massa folhada, sopa de tomate com queijo chabichou e borsch com chantilly salgado, tudo guarnecido de croutons de nata e queijo.
Parecia bastante complexo para quem lesse e bastante simples para mim, apenas sopas! Mas as coisas fugiram do controle e por falta de planejamento, experiência, jogo de cintura e organização minha banca foi um desastre total, com direito a crosta de massa folhada afundando na sopa, croutons queimando no forno e um creme de leite que teimou em não virar chantilly. A banca entrou em conselho e permitiu que eu refizesse minha prova, com mais algumas correções. Uma das semanas mais longas da minha vida se passou entre panelas, livros e verdureiros, noites mal dormidas e tardes fatídicas se intercalavam com desespero, medo e coragem.
Na véspera da prova preparei todos os meus caldos e adiantei tudo o que era possível adiantar, no dia da banca cheguei cedo e fui tomada de uma força divina, pois já estava cansada e vencida, temendo uma nova derrota acompanhada de humilhação, eu tinha muito medo. Mas fui forte, não fugi nem abaixei a cabeça, vesti meu uniforme como quem se prepara para guerra, amarrei o avental e dobrei as mangas com um suspiro de coragem, entrei na sala e apesar de manter as mão trêmulas do início ao fim, fiz tudo o que deveria fazer, explanei sobre o prato, a justificativa da escolha, a história das sopas, demonstrei as técnicas, cuidei das cocções e tudo correu no tempo exato, não faltou nem um minuto, montei e apresentei uma produção colorida, bonita, aromática e atrativa. Passei! E isso era o que importava, mas ouvi com muita atenção os comentários dos professores, um deles guardarei comigo para sempre: “a sua banca foi a prova de como (não)funciona uma cozinha sem planejamento e organização, e eu espero que você tenha várias provas como essa na sua vida, pois é dessa maneira que vem o aprendizado e o crescimento”. Ele tinha razão, eu cresci, aprendi que o que parece derrota pode ser apenas uma chance de ver a vida por outro ângulo, aprendi a ser mais humilde e ter respeito pelos que parecem menos capazes.
Uma parada para respirar! Fui para a casa dos meus pais pedir conselhos e desfrutar daquele clima familiar que me faz tanta falta. Eu tinha acabado o curso de Chef e precisava decidir se iria encarar o mercado de trabalho ou continuar estudando. Recebi convites para trabalhar em alguns lugares bastante interessantes assim que peguei meu diploma, mas decidi seguir na academia, me matriculei no Bacharelado em Gastronomia e devo me formar em dezembro de 2009. Percebi que estendendo por mais um ano e meio minha vida acadêmica eu tinha muito a ganhar e nada a perder, teria chances de ser uma profissional mais completa e aumentar meu campo de atuação se dominasse técnicas de administração, planejamento de ambientes, custos, cardápios, economia, marketing...
Acredito ter feito a escolha certa, o curso não tem deixado a desejar. Logo, aproveitei para realizar outras atividades, curtas ou longas, temporárias e descomprometidas, desfrutar dessa fase, estudar e viajar. Estou aperfeiçoando meu francês, já que pretendo ir à França assim que concluir a faculdade, além dele, falo espanhol e me matriculei num curso de inglês. Assim que possível coloco uma mochila no ombro e vou conhecer um pouquinho da América Latina.
A nova rotina acadêmica me permitiu ver a gastronomia de outra maneira, tenho estudado matérias que não imaginava serem tão interessantes, abrir livros de design e arquitetura não é mais uma aventura e sim uma necessidade, assim como acompanhar a economia mundial, taxas de juros, crescimento e por aí vai. Agora estou desenvolvendo mais um projeto, o trabalho de conclusão de curso, que consiste em montar uma empresa de A e B, real e, se possível, viável. É preciso fazer pesquisa de mercado, compra (fictícia) do terreno ou imóvel, levantamento de custos, desenvolver cardápio, cartilha dos colaboradores, manual de treinamento, enfim, é um trabalho bastante completo que habilita os bacharéis a trabalharem com consultoria nas mais diversas áreas de alimentos e bebidas, tanto em produção como serviço e venda. O projeto que estou desenvolvendo com meu grupo é uma cervejaria em Rio Negro, uma empresa viável e com grandes chances de sucesso.
Ao longo do ano participei de eventos ligados a gastronomia, workshops, aulas shows e palestras, dentre eles o evento da Costa da Esmeralda, em Bombinhas – SC e Prazeres da Mesa Ao Vivo, em São Paulo – SP, onde pude ver de perto grandes chefs, como Laurent Suadeau, francês erradicado no Brasil, pertencente à Gastronomia Clássica, profissional sério e duro, autor do primeiro livro indicado pela faculdade “Cartas a um Jovem Chef”, livro que só não me encantou mais que sua palestra.
Com essa adoração por viagem, fui para Bento Gonçalves – RS, conhecer o Vale dos Vinhedos e ver de perto a produção dos vinhos mais conceituados do país, naquele lugar lindo percebi mais uma vez a grandeza deste Brasil, que é apenas um país onde vários pequenos brasis estão contidos e se comporta diferente a cada 200 km.
Aos 20 anos tenho pouca experiência profissional, mas muita garra e disposição, sempre apaixonada pela magia dos alimentos me envolvi logo cedo com as panelas, fôrmas e fouets nas cozinhas de minha mãe e minha bisavó, que faziam tudo parecer simples, transformavam ovos, um pouco de açúcar, trigo e manteiga nos biscoitos mais gostosos, que perfumavam a casa toda.
Sempre que entro em uma cozinha procuro esse amor pelos alimentos, aquele cheirinho de biscoito que não esconde o valor da simplicidade. Então tenho construído minha carreira aos poucos, já trabalhei em quase uma dezena de lugares diferentes e devo ter ficado um mês (ou uma semana) em cada um. Em cada cozinha aprendi alguma coisa, vi um pouco do que deve ser feito, e do que não deve ser feito, fiz amigos e contatos.
Se perguntarem meu objetivo, respondo sem demora, cozinhar! E passar toda essa paixão para os pratos, satisfazer os comensais com o prazer que só uma boa comida pode proporcionar, trabalhar para aumentar a beleza dos alimentos, realçar os aromas naturais, buscar as texturas ideais, construir formas e alimentar o corpo com nutrientes e a alma com arte.
Minha ambição? O conhecimento! Desejo trabalhar com os grandes chefs para desvendar seus mistérios, descobrir ingredientes e combinações, aprender novas técnicas, desvendar segredos e lapidar meus conhecimentos para um dia poder atingir meu objetivo. Nunca vou parar de aprender, talvez um dia comesse a ensinar, pouco sei do futuro, conheço o lugar em que quero chegar e tenho uma idéia do caminho que devo percorrer, mas memórias são feitas de passado e meus relatos param por aqui.
domingo, 11 de julho de 2010
Contagem regressiva!
Agora vai!


