Diário de viagem de uma jovem profissional de gastronomia, brasileira, que resolveu se aventurar no velho mundo e hoje habita em território francês. O relato das percepções, acontecimentos, alegrias e percalços transcorridos durante nove meses de estágio num restaurante 3 estrelas...
domingo, 12 de dezembro de 2010
Natal
(Aqui na França a palavra especial tem um sentido diferente que no Brasil.. quando se diz que uma coisa é especial, quer dizer normalmente diferente, e isso pode ser bom ou não. O especial é algo que não é comum.)
Enfim, Natal com neve! Sem árvore de natal em casa.. mas com boneco de neve no jardim.
Sei que vou trocar presentes com meus amigos, e teremos um belo jantar no restaurante. Para entrar no clima comprei um vestido vermelho. Meus presentinhos de natal já estão num cantinho do meu quarto, aguardando os futuros donos. Mandei um cartão com votos de paz e prosperidade pra família.
Desde o começo do mês que estamos em clima de natal.. a produção da cozinha se intensifica para as encomendas de fim de ano, no restaurante tem um pinheiro decorado com bolas douradas e ursinhos de pelúcia.
Cheguei ao meu quinto mês de estágio, o que significa que metade da jornada já ficou para trás.
Em breve tenho férias novamente e vou poder matar a saudade que anda me deixando com um nó na garganta de tão grande.
Quanto as férias:
Em janeiro mais um mês de férias e no trabalho me perguntaram: "Gabi, você vai ao Brasil nas férias?" e antes que eu pudesse responder, meu chef respondeu por mim: "não, é o Brasil que vem nessas férias!"
E é isso... o que eu espero para o natal e o ano novo é um pouco mais de Brasil nessa França. Mas amor, mais alegria, mais calor, mais vibração!
sábado, 11 de dezembro de 2010
Não é fácil
Não é fácil morar em outro país.
Não entender tudo o que falam, não conseguir dizer tudo o que gostaria porque sempre faltam palavras.
Estar no fundo sempre sozinho.
Mesmo tendo amigos, eles ainda são sempre um tanto distantes.
Como faz falta aquele abraço da sua melhor amiga que sabe o que vc está sentindo só de te olhar.
Sem falar na família...
E ainda tem os costumes, o frio, a falta daquilo que vc tanto gosta, a falta daquelas coisas a que está acostumado.
Os hábitos... as comidas.. e a saudade.
A saudade é tão grande e tão abrangente que quando vem os momentos de nostalgia não há um item que não pareça fazer uma falta enorme.
É preciso todos os dias uma dose de coragem extra, pra encarar mais um dia de trabalho e muito esforço.
Esforço pra levar na boa os comentários sem graça, esforço pra se comunicar, esforço pra não parecer que está cansada, levar na boa e parecer sempre feliz.
Ah, como isso é cansativo. E duro. E solitário.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Les Trois Étoiles...
Faço parte de uma brigada de cozinha em que todo jovem cozinheiro gostaria de participar.
Meu chef foi premiado com 3 estrelas Michellin, ou seja o máximo de qualificação possível para um restaurante, não existe mais que isso.
Sempre achei que como existem vários restaurantes três estrelas na Europa e no mundo isso não devia ser assim, tão magnânimo... especial e importante sim, mas não mais que isso. Grande erro meu.
Conquistar as 3 estrelas (que aqui eles chamam também de 3 macarrons) não é para qualquer um, e também não é coisa que se faça do dia pra noite, são anos e anos de trabalho duro, de dedicação, de atenção aos mínimos detalhes.
Eu me dei conta da importância desses macarrons o dia que algumas portas começaram a se abrir por conta das minhas referências, quando percebi que as 3 estrelinhas na bagagem facilitam muitas coisas, e claro que isso tem um porquê. Não é a toa que o restaurante estrelado tem tanto prestígio, ele faz por merecer. O investimento profissional e financeiro é dia após dia, incansável e imensurável.
Talvez quem esteja de fora (como eu no principio) não consiga perceber as coisas nos mínimos detalhes, como por que o chefe é tão duro e exigente (não é porque ele não tem coração), por que tudo o que você faz não é bom o bastante se não for perfeito, porque é necessária tanta atenção para fazer coisas simples, por que tanto luxo à mesa se o que importa mesmo é o sabor dos alimentos, e claro por que tudo é tão absurdamente caro!
Agora acho que tenho algumas respostas, e estou feliz de estar nesse meio e nesse momento, no auge. Pois sei que não foi sempre assim, o princípio foi extremamente duro, até fazer com que as portas se abram sozinhas é preciso dar muitas voltas. Espero um dia alcançar o sucesso dos meus chefes, não da maneira deles, mas espero chegar lá, pois o primeiro passo já foi dado.
sábado, 27 de novembro de 2010
A neve
E como sempre as coisas mágicas têm o elemento surpresa que torna tudo ainda mais inacreditável.
Eu acordei pela manhã para ir trabalhar e ainda meio dormindo abri a janela, e que surpresa... tudo estava branco! Simplesmente BRANCO e muito branco... olhei para os lados, abri a porta do quarto, procurei alguém pra me certificar que eu não estava sonhando.. porque tudo era branco como num sonho mesmo... não encontrei ninguém.. e não me contive, como uma criança comecei a dar pulinhos.. neve!! é neve!!!!
Engraçado que eu já esperava por isso, eu sabia que uma hora ou outra ia nevar.. eu vi na previsão do tempo, as pessoas falaram, mas eu não tinha acreditado.. até então pra mim neve era mesmo coisa de filme!
Como pode nevar?? mas nevou... e foi bem como todo mundo fala.. a neve é bonita.. gelada.. não tem gosto.. os floquinhos são como nos desenhos, perfeitos, lindos... e descongelam ao tocar no nosso corpo..
Foi um dia que vai ficar pra sempre na minha memória...
e por um bom tempo meus colegas de trabalho vão lembrar (pois grandes emoções são contagiantes) do quanto encantada e eufórica eu fiquei com a neve.. como alguém que conhece uma coisa muito especial, e uma coisa que não é sua e nem de ninguém, algo bonito e especial como uma festa em que todos podem participar.
As cores:
Quando cheguei na França, tudo por aqui era incrivelmente verde! Sim porque moro num lugar isolado e tem bosque para todos os lados.. o verde não me chocou.. achei bonito e familiar.
Mas tudo mudou quando veio o outono e as cores do momento eram marrom e amarelo.. bem amarelo, isso já não me era habitual, achei bonito... ver as folhas caido das árvores foi extraordinário..
No entanto, eu ainda não tinha visto tudo...
Depois que cairam todas as folhas a paisagem ficou cinza.. triste. Sem graça e sem vida.
(como numa novela.. tudo começa bem, depois aparecem os vilões, a história fica dramática, até que as coisas vão se ajeitando até chegar o final feliz)
Então (é aí que as coisas começam a de ajeitar, mudam-se os papéis.. vem os elementos surpresa) nevou! e a cor dominante é agora o branco.
O desfecho dessa minha novelinha vai ser na primavera, com todas as cores que se tem direito.
sábado, 6 de novembro de 2010
Bourgogne
Tem certas coisas na vida que realmente não têm preço.
Estar entre amigos é uma delas.
Foi assim que coemeçei mais uma maravilhosa semana de férias.. (bem diferente da anterior que passou durante o verão e eu estava "toute seule" sozinha).
Na terça-feira ao meio dia partimos daqui e fomos de carro até a cidade de Beaune, onde nos instalamos em um hotel bastante simpático, depois jantamos em um excelente restaurante, onde tive o prazer de tomar os melhores vinhos que pude conhecer em minha vida.
Para a entrada um vin blanc, Bourgogne, Domaine Grange des Peres 2004 e uma deliciosa sopa de cogumelos, ao prato principal tivemos Ris de veau avec truffes (muita trufa!) e um tinto Clos de Bourgogne 2003. Parfait!
Acho que foi por isso que escolhi fazer cozinha como profissão... o prazer de estar à mesa com bons vinhos e boa comida é outra das coisas que não tem preço (bom.. na verdade tem um certo preço, mas sempre vale cada centavo se a comida é boa).
Torta de pêras para a sobremesa.
Como o café-da-manhã do hotel era maravilhoso aproveitamos para forrar bem o estômago para o segundo dia de degustações.. mas 3 vinícolas e uma cave de Whisky.
Nem sei como descrever.. foi simplesmente maravilhoso! Muito proveitoso profissionalmente.. e claro, divertido pela companhia dos amigos e por estar fazendo algo que ao mesmo tempo me toca como trabalho e como prazer (essa é outra das coisas que não tem preço).
Para o terceiro dia, nada de degustações.. apenas passeamos um pouco pela cidade, fomos a um museu "Hospice de Beune" que foi um hospital no século XIV e tem os espaços bem conservados e uma arquitetura gótica de fazer brilhar os olhos.
E foi isso, da Bourgogne eu trouxe na bagagem uma rolha de um vinho muito especial, produzido em 1988 que o proprietário da vinícola Bruno Claire gentilmente nos proporcionou degustar.
domingo, 31 de outubro de 2010
La chance
Mon anniversaire
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Todo dia é uma descoberta
O que tu farias se colocassem teu mundo de pernas pro ar?
Se tudo tivesse ao contrário?
Se tu tiveres dúvidas do certo e do errado.. como agirias?
Se de repente o esquisito parecesse bonito e o habitual enfadonho?
As coisas mudam.. e mudam muito.
Ontem andei quase 12 km de bicicleta depois de anos se nem chagar perto de uma.
Bebi champagne de verdade pela primeira vez.
Dancei com meu chef!
Na semana passada (re)descobri a alegria de comemorar um aniversário, com leveza, sem compromissos ou obrigações, tirei o dia 19 de outubro pra ser meu, só meu! Fiz tudo o que deu vontade, sem planos nem dificuldades.
Para a semana que vem, tenho férias novamente... Farei uma viagem com os amigos, vamos à Borgogne degustar os melhores vinhos da França!
A vida é boa, meio esquisita às vezes... meio complicada... mas mesmo fora dos eixos dá pra ser feliz, e tenho pensado que quanto mais fora dos eixos melhor!
Pois é quando as coisas mais simples tem mais valor, que quanto maiores as dificuldades, mais grandiosas serão as recompensas.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Semana agitada
O cardápio mudou (ele muda 4 vezes por ano, seguindo as estações, para aproveitar o melhor da sazonalidade de produtos), saíram as sobremesas do verão, com morangos, tomate, pêssego e entrou a carta de outono.. uma sobremesa com champignon, outra com maçã, um souffle de mirabelle...
Muitas novidades e um grande trabalho pra por tudo em ordem.
Ainda tive que me ocupar de descascar, cortar, e preparar uns 15 quilos de maçãs, para fazer 10 grandes tortas a uma festa municipal, colaboração do restaurante.. que enviou a torta mas não dispensou ninguém do trabalho para participar do evento (nem cheguei a experimentar a torta).
Enquanto isso ainda preparamos na confeitaria várias coisinhas para uma degustação especial, pois se no Brasil 12 de outubro é dia das crianças, a semana do dia 12 na França é a "semana do gosto", que é quando profissionais de cozinha vão as escolas e convidam as crianças a refletir e sentir o paladar. Eu fui acompanhando meu chef a uma escola, onde falamos sobre o paladar e os alimentos e propusemos uma pequena desgustação a 21 crianças de 3 a 5 anos, sensibilizando-os quanto aos 4 gostos (salgado, doce, amargo e ácido), com direito a macarrons de pomplemousse, guimeuve de citron, graine de courge, e chocolate. Acho que começa aí a cultura gastronômica francesa...
Nem tive muito tempo pra pensar que já chega a data do meu aniversário, não vou fazer festa, mas também não vou deixar de comemorar, amanhã vou sair às compras (o frio já bate a porta e ainda não tenho vestes apropriadas), e devo jantar num lugar legal pra lembrar que é um dia especial.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Diariamente
8h e 30 min o Jorge canta de novo... é hora de levantar da cama... espreguiçar. Lavar o rosto, ir ao banheiro, escovar os dentes, trocar o pijama pelo uniforme, dar uma olhada no tempo pra calcular a espessura das roupas que vão por baixo do uniforme (manga curta, comprida, gola alta, ou lã..). Prender os cabelos, dar o nó no lenço do pescoço, passar aquela camadinha de rímel pra não parecer que ainda estou dormindo.
9h sair de casa, pegar uma maçã da árvore do vizinho e ir comendo no caminho.
9h e 5min chego no trabalho, Bonjour a todos que encontro no caminho, começo meu trabalho.
10h pego um café para aquecer um pouco a manhã. E a jornada segue.
11h e 30 min hora de almoçar, sentar um pouco, conversar.
12h o trabalho continua.
15h e 15 min arrumamos a cozinha, limpamos, esfregamos o chão, secamos e pronto, a primeira etapa do dia de trabalho chegou ao fim
15h e 30 min volto pra casa, vejo um pouco de tv, converso com o Eugenio e com o Alejandro, falamos sobre o trabalho, planos para o fim de semana, falamos sobre que tá passando na tv e sobre nós mesmos. Tomamos iogurte, comemos maçãs...
16h e 30 min siesta, vou para meu quarto, deito na cama, penso na vida, leio um pouco, e descanso.
17h e 30 min banho.
18h voltar os trabalho.
18h e 30 min jantar.
22h limpeza do cozinha
22h e 30 min ir pra casa, quase congelando no caminho, às vezes me deparo com animais selvagens.. cervos, raposas e patos.
Acabou o dia.. hora de relaxar um pouco.
Às vezes tomamos um vinho, às vezes comemos batatas com pimentas mexicanas, às vezes tomamos sopa. E na maior parte das vezes nem comemos nada. Assistimos um pouco de tv de novo, às vezes um filme. Aos sábados fico até a meia noite na internet.
Depois vou dormir.
Que amanhã é tudo de novo.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
A Terra do Nunca
Eu e meus amigos somos como crianças que se perderam, estão longe de casa, longe de suas referências, longe da família, longe do próprio país.
O Jan gosta de chamarmos de a "Legião Estrangeira", mas como parecemos mais crianças que soldados acho que somos os garotos perdidos. Pois sim, somos brasileiros, japoneses, mexicanos, holandeses e nos encontramos aqui na França, falamos em francês, português, inglês, japonês e espanhol uns com os outros e simplesmente nos respeitamos e nos gostamos. Nos divertimos como garotos, que ficam se empurrando, brincando de lutar, desenhando, rindo uns dos outros. Nos ajudamos e tentamos nem lembrar do que está distante. É assim que conseguimos ser autênticos nesse ambiente hostil.
Chega um momento que os franceses nos parecem tão mal-educados e irritantes que evitamos até seu idioma, mas não falamos sobre isso. Estamos todos aqui, e por uma sorte do destino nos unimos, às vezes nos faltam palavras, mas sempre nos entendemos.
Noutro dia, saímos para colher cogumelos na floresta, nos finais de semana cozinhamos uns para os outros. Ontem a noite estávamos lembrando dos desenhos animados da infância e cantando as musiquinhas de criança nos nossos idiomas.
E vai passando um dia depois do outro e não nos importa a idade, situação financeira, origem, se falamos bem ou mal o idioma, se fazemos besteiras, se somos chorões, se dormimos demais ou de menos, se somos pequenos ou grandes, loiros ou morenos, se usamos óculos ou muletas, somos amigos.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Setembro chega ao fim
Voltei ao trabalho e não tenho tido grandes novidades.. já estou com saudades das férias, e não é nem pelo trabalho, mas pela monotonia do lugar onde vivo.
Não é fácil se acostumar a morar no meio de uma floresta, distante de tudo e todos, sem qualquer possibilidade de atividade, compras, lazer, restauração...
Mas enfim, outubro já chega e o tempo tem passado rápido!
O frio anda batendo à janela, as árvores estão mudando lentamente de cor, o verde está ficando amarelado e o outono é quem dá o tom do momento.
O que me faz lembrar que não tarda a chegar o momento de rever as pessoas que tanto amo (que devem chegar junto com a neve)!!
À bientôt!
sábado, 18 de setembro de 2010
Barcelona
Em Barcelona a arte não está só nos museus, ela se espalha pelas ruas com esculturas nas praças, e se estende na arquitetura dos prédios, casas e igrejas. Como por exemplo a obra viva de Gaudí “A Sagrada Família”, uma igreja que começou a ser edificada em 1902 e ainda continua em construção.
Em Barcelona fiquei 5 dias e aproveitei-os muito bem. No primeiro dia comprei um passeio com ônibus turístico (daqueles em que os turistas ficam no andar de cima do ônibus com fones nos ouvidos e câmeras fotográficas nas mãos, disparando flashes para todo lado). Sempre achei isso meio brega, mas eu era turista mesmo, tive indicações para fazer o passeio e era a maneira mais prática de conhecer a cidade como um todo e depois poder me localizar bem durante os próximos dias. Foi uma boa opção, fui ouvindo um pouco da história da cidade, identificando os prédios famosos e obras relevantes que ia avistando no caminho, e também os pontos de interesse para os turistas. Isso acabou me rendendo uma tarde e mais um dia inteiro de programação cultural.
Conheci ainda um Aquário, só tinha visto isso na televisão e achei fantástico! É um lugar super-didático, (acho que eu era a única adulta desacompanhada de crianças, ou criança desacompanhada de adultos, agora não tenho certeza) onde pode-se ver diversas espécies de peixes, corais, estrelas-do-mar, além dos tubarões bem de pertinho! Me senti com 6 anos de idade, encantada como todas aquelas crianças a minha volta que falavam o tempo todo “olha esse!! Mãããe!!” nos mais diversos idiomas.sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Madrid
Mas tudo se resolveu em uns instantes, primeiro pq me surpreendi comigo mesma quando comecei a falar espanhol com muita facilidade, as palavras vinham a mente naturalmente, sem muito esforço (diferente do francês), e consegui me comunicar muito bem desde o início.
Segundo que para chegar ao hotel foi muito fácil, o metrô saía diretamente do aeroporto e parava a uma quadra do hotel. Fui muito bem recebida no hotel e mesmo sendo muito cedo pude entrar, deixar as bagagens e descansar um pouco.
Vale! Logo estava pronta para conhecer a cidade.
Percorri muitas e muitas Plazas, fui a um show de dança flamenca, bebi a deliciosa sangria e comi tapas, tortillas, bocadillos, jamón...
Passeios culturais: Museo Reina Sofia - ver as obras conhecidas desde a infância pelos livros é muito legal, Dali, Miró, Picasso.. e outros! Mal tenho palavras para descrever essa sensação.
Mas não é só dos clássicos que vive o museu, fui também ver de perto as loucuras dos artistas contemporâneos que são capazes de deixar qualquer um com repulsa e nojo bem aflorados! Lixo exibido em museu não é pra mim, desculpem-me os autores, mas que exposição desagradável...Seguinte, Jardim Botânico - construído por ordem do rei Fernando VI em 1755, é esplendoroso, como deve ser uma obra Real! Lindo, encantador...

Como estava já muito cansada dos outros dias, que não tinha dormido muito bem, finalmente estava em um hotel bem agradável descansei bastante tb e tudo passou muito rápido, logo já era hora da próxima cidade...E o barco segue
Nem sei bem o que dizer de Lisboa, gostei. Conheci algumas coisas, muitas pessoas, fiz amizades e comi os famosos pastéis de belém.
Passeios culturais: Fundação Gulbenkian, que contém um grande acervo de arte antiga do oriente médio.
Museu da Marinha, achei que tinha tudo a ver buscar algo sobre os descobrimentos. Poderia ter ido a outros museus, mas em apenas dois dias não dá pra querer fazer tudo! Nessa viagem sempre me preocupei mais em conhecer a cidade que os museus, então valeu, pq conheci quase todos os bairros, passeei por muitos lados, caminhei até ganhar bolhas nos pés.
Pra não perder o costume me perdi na cidade logo de cara, e fiquei caminhando como uma infeliz pela cidade até abrir mão de tudo. Fui pro hotel meio desanimada pensando em ao menos entrar na internet e poder falar com alguém, foi qdo conheci uma menina alemã, que morou no Uruguai e está estudando em Portugal, que me levou para conhecer os lugares mais bonitos de Lisboa!
Depois disso as coisas foram mais fáceis, não me perdi mais e consegui fazer várias coisa sem aquele desespero que me abateu no início.
No último dia fui a praia, Cascais, que fica bem pertinho de Lisboa, pode-se ir de trem e chegar em meia hora. Ah, como eu gosto de praia, tomar sol, entrar no mar (que estava gelado), nadar um pouco, isso sim é relaxar e recarregar as energias, depois disso estava pronta pra encarar as 8 horas de viagem noturna de trem até Madrid.
Lugares imperdíveis: Miradouros (mirantes) de onde pode-se ver toda a cidade e o Oceano Atlântico, ou o Rio Tejo, ou os dois! Belém, para comer os famosos pastéis, Chiado e Bairro alto, para ter uma noção da cidade.
sábado, 4 de setembro de 2010
Férias!
Primeira parada:Porto -Portugal
Que cidade linda! Embriagantemente linda!
Praia, sol, calor, e não só isso, comida boa, bons vinhos, tudo muito barato e muito acessível. Vai-se de um lugar ao outro de metrô ou ônibus, tudo é muito fácil, as pessoas muito simpáticas. A pousada em que fiquei então, nossa, que lugar aconchegante! E depois de muito tempo longe, me senti um pouquinho em casa! Ah, Portugal e Brasil tem mesmo uma ligação muito mais forte do que eu imaginava, é uma ligação que vai além do idioma, é uma questão de costume.
Falando nisso, com o é bom falar português!!!! Entender e ser entendida, o tempo todinho!!!! Me senti local! no segundo dia já estava até dando informações em francês! hehe
Ir embora foi meio triste, acho que podia ter ficado os 15 dias em Porto que teria aproveitado bem essas férias. Mas o barco segue, e existem muitos sítios para serem descobertos ainda.
Segunda parada:
Coimbra - Portugal
Uma bela cidade histórica, onde funciona a mais antiga universidade da Europa, uma cidade "pequena" para os portugueses e por isso mesmo mais complicada para os "gringos". Não tinha metrô, as linhas de ônibus me pareceram bastante confusas, demorei a achar a pousada onde ficaria. Acabei achando e depois de muito camelar com a mochila nas costas descobri que em Coimbra o preço dos taxis equivale a 2 viagens de ônibus =/ ah, se eu soubesse antes!O melhor dessa cidade me pareceu ficar na margem do Rio Mondengo em algum dos barzinhos que lá se encontram.
Passeios culturais? Nenhum, não deu tempo!
A beleza da cidade? Suas edificações antigas, o rio e suas margens, as alamedas de árvores centenárias.
Aguardem os próximos capítulos!
=)
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Pra lavar a alma
Nada como perder o chão..
Um banho de água fria,
Um empurrãozinho da brisa,
Uma chuva no caminho,
Um banho de rio.
Perder a visão por alguns instantes,
Se deixar levar.
Foi assim que confirmei a minha vida aqui.
Como se existisse um test-drive, um tempo de experiência, ou qualquer coisa assim.
Quando você experimenta uma coisa nova,
uma grande coisa!
Você pode voltar atrás de imediato, ou escolher mais uma vez ficar.
Por que você um dia desejou essa coisa, quis muito, correu atrás, fez tudo pra conseguir.
Quando tudo acontece e você tem isso na mão, você percebe, que quando o sonho se torna realidade as coisas são um pouco diferentes, as dificuldades são grandes e você precisa mudar para se adaptar.
Então você pode aceitar a mudança e seguir em frente ou não aceitar, e voltar ao ponto de partida
Aceitar significa confirmar, dizer não apenas sim mas "é isso aí!" ou "voilá" como os franceses.
Eu disse "é isso aí" essa semana,
E como uma brincadeirinha do destino, eu fiquei sem chão (no bom sentido)
Bom sentido? sim...
Por que ficar sem chão é ganhar uma dose de adrenalina
Perder o chão é como se apaixonar e ter aquela sensação de leveza...
Flutuar, sentir antes de visualizar..
Mas não, eu não me apaixonei, eu perdi o chão de verdade,
eu tomei um banho de chuva numa noite quente, escorreguei no caminho e caí do rio.
Mergulhei para lavar a alma e aceitar definitivamente que tudo mudou.
Para admitir que por mais errante que seja a existência, temos sempre um porto seguro. Ou mais de um.
E o porto seguro muda de endereço, e vai morar na nossa casa se permitirmos que isso aconteça.
Eu permiti. E parei de esperar que tudo acabe pra voltar a me sentir segura.
E além do mais... curti ficar sem chão!
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Projeto de férias
(É.. falam do Brasil, mas por aqui se tem muitas ferias também..)
Do dia 31 de agosto a 14 de setembro vacances...
Estou na Europa! Talvez o melhor lugar do mundo para passar férias!
Mas agora surgiram tantas dúvidas!! Preciso aproveitar esse tempo da melhor maneira, sendo econômica e prática.
Com esse tema farei uma proposta aos meus leitores
(é, meus leitores são vocês minha família! não sei bem que lê esse blog, pq ninguém nunca escreve um comentário, mas segundo minha mãe sou lida por grande parte do Brasil, do Paraná ao Rio de Janeiro, passando ainda pelo Mato Grosso do Sul!)
Sugestão de viagem!!
Vocês que são pessoas muito viajadas e estudadas, descoladas e tudo mais, com toda certeza terão muitas dicas para mim!
Já comprei a passagem e fiz reserva para os primeiros 3 dias de viagem:
Saio daqui (Baerenthal) dia 31 de agosto (de carona com os colegas) para Strasbourg.
Em Strasbourg pego um trem até Paris. Passarei uma noite em Paris (nada muito glamuroso.. vou ficar no Hotel F1 próximo ao aeroporto, só pra não viajar de noite).
Em 01/09 pego um avião de Paris a Porto (Portugal) e fico 2 noites no hotel Escondidinho! (heheh no site dizia ótima localização e o preço foi imbatível!)
Agora ainda faltam 12 dias para planejar! Pensei em ficar uns dias em Lisboa. talvez Coimbra e Faro. Depois Barcelona e Madri.
Mas quero sugestões, palpites, dicas e tudo mais!! Por favor!!
Beijoss!!!
1 mês!
O trabalho é puxado, as dificuldades são grandes, mas é só a saudade que me machuca.
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Ganhei alguns euros!
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Mais difícil que conhecer as palavras é dominar o raciocínio. Nem tudo tem tradução, você pode conhecer as palavras e entender, mas ser entendido é mais complicado.terça-feira, 3 de agosto de 2010
Demorou, mas valeu a espera
E o melhor de tudo, cheguei na hora certa. Minha mãe dizia: "calma, tudo tem seu tempo, vai acontecer qdo tiver que acontecer".
E foi assim, cheguei numa época bem boa, boa para o trabalho, boa para as amizades. Cheguei no verão e com a certeza de que era isso mesmo o que eu queria, sem grandes dúvidas, sem grandes preocupações.
Estou feliz aqui e me sinto cumprindo uma etapa da minha vida. Gosto desse país e me encantei pela cidade, poderia viver aqui por muito tempo.
Vim para trabalhar e para aprender. E deu tudo certo! O trabalho é bom, estou aprendendo muito e já ganhei meus primeiros euros!!!
Beijos a todos,
Saudades!!!
A vida é agora
A vida é boa, aqui ou em qualquer parte, a diferença são as opções.
É engraçado como as coisas mudam de formato mas continuam iguais. Aqui tudo é um pouco diferente e bastante parecido, não é a mesma coisa, mas ainda sim não é outra coisa.
Todos levam a mesma vida em qualquer parte, trabalham, dormem, comem, se divertem, sofrem, vão ao mercado, lavam suas roupas, tomam banho, conversam com outras pessoas, reclamam, e fazem todo dia as mesmas coisas.
O que muda de verdade é a idade, a cada ano mais velho, a cada mês mais experiente, a cada dia mais esperto.
E há que ser esperto (e também se fazer de bobo) para se adaptar em outro país, onde falam coisas que você não entende, onde fazem coisas que você acha absurdo, onde agem de maneira diferente e estranham seu jeito de ser, onde você tem que ficar medindo palavras e gestos, ser sempre comedido mas cuidar para não parecer frio demais.
Lendo e-mails sempre fico um pouco emotiva, a saudade me machuca bastante e então hoje me disseram: "é que vc deixou uma vida lá no Brasil.." mas eu discordei, não, eu só tenho uma vida, a minha, e ela veio comigo. Minha vida é aqui, no Brasil está o passado e do futuro só Deus sabe. No Brasil deixei não a vida, mas outras coisas importantes, minha família, meus amigos e meu coração.
E a saudade dói, isso é tudo.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Carta aos pais
Gabriela
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Lema
Um lema que ganhei da minha mãe:
"Foco na possibilidades e nunca nas dificuldades"
Gostei da frase, é boa, principalmente nesse momento, de dificuldades e possibilidades. É preciso ter foco!!!
Saudades de vocês!
Beijos
É verão!!!
É preciso aproveita ao máximo, por que dias com quase 17 horas de sol, ah, só no verão. E quando ele acaba, hum, é melhor nem pensar.
Ontem foi um típico fim de semana de varão, pela manhã todos (quase todos) do restaurante foram jogar volei na "praia" (na cidade onde moro há uma pequena "praia" de água doce, areia mesmo só na quadra de volei, mas tem um gramado onde as pessoas deitam para tomar sol e um lago onde se banham).
À tarde fomos à piscina, não todos, ficamos num grupo de 7 pessoas.
A piscina era como um pequeno parque aquático, muito bonito, muito organizado, não era para menos, esse parque fica na Alemanha! E foi assim, pisei ontem em terras alemãs! E claro, me senti em casa, com muito sol, banho de piscina, ah, que coisa boa o verão!
Detalhe importante: ninguém zombou da minha cor... que estava branca demais, e depois um pouco vermelha... Quando comentei que o sol estava forte com um francês que tinha perguntado porque eu estava na sombra, ele só respondeu um pouco impressionado: Mas.. de onde vc vem o sol é muito forte... (com aquele ponto de interrogação no semblante).
É sempre difícil acreditarem que sou brasileira, e por mais preconceituoso que isso seja, acaba sendo uma vantagem.
domingo, 18 de julho de 2010
Paris
Foi assim. tudo o que dizem é verdade! Paris é linda, encantadora, apaixonante!
Tudo é bonito, descomplicado, organizado. Pensei: Como gostaria que as grandes cidades brasileiras se inspirassem em Paris!
Aqui tudo funciona, o onibus não atrasa, o transito não pára, não se vê sujeira ou lixo nas ruas, existem ciclovias e pontos de aluguel de bicicleta a cada duas quadras.
O ar é limpo, existem muitas árvores, as praças são muitas e todas bem cuidadas. O povo é educado, e comigo foram todos gentis. Existem mapas por todos os lugares e é quase impossível de se perder.
Amei Paris, gostaria de morar nesta cidade, se não puder, com certeza voltarei, muitas e muitas vezes.
Como tinha apenas um dia pela cidade fiz uma programação enxuta e não me preocupei muito: vou conhecer o que der, o mais importante é que já estou aqui!
Fui de ônibus a Torre Eifel, mas não subi, tinha muita fila, muvuca e não me pareceu boa idéia. Fui para o Arco do Triunfo (de onibus tb) e caminhei pela Champs Elisee. Almocei, tirei fotos no Senna, caminhei até o Musee du Louvre. Vi a Monalisa, e mais centenas de obras de arte de me deixaram impressionada!
Mais uma vez lembrei do Brasil e pensei que os museus brasileiros....
Fui a Gare (estação de trem) para comprar minha passagem para a cidade onde fica o restaurante onde estagiarei. Não teve como não lembrar das rodoviárias brasileiras e da falta que faz linhas de trem de passageiros num país tão grande como o nosso.
Voltei para Bercy (onde fica o hotel em que estava hospedada), jantei uma pizza e acabou o dia.
Cheguei
Foram alguns percalços, mas deu tudo certo.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Contratempos
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Malas prontas
Hoje foi o dia de fechar as malas. Momento de sufoco e alegria!
MEMORIAL - Dezembro de 2008
Nascida no dia 19 de outubro de 1988, recebi o nome de Gabriela Lehmann Loureiro, terceira filha de Marcos e Josiane, fui a filha caçula até os 10 anos, quando nasceu Sabrina, para completar a família que já era grande o bastante para os padrões sociais da época, mas ainda pequena para mim que sonhava tanto com um bebê em casa.
Morei até os 17 anos em Rio Negro, PR, minha cidade natal, quando concluí o ensino médio, fiz alguns vestibulares sem obter resultados satisfatórios, demorei para decidir a carreira a seguir, e quando tinha decidido mudei ligeiramente de foco e entrei para o curso de Comunicação Social – Rádio e Tv, cursei apenas 3 meses, a turma era pequena, a faculdade não correspondeu ao que eu esperava e voltei para a casa de meus pais com poucas certezas a respeito do meu futuro.
Em julho de 2006 me inscrevi para o curso de Gastronomia, com algumas esperanças e muito medo, pois eu estaria definitivamente abandonando minhas convicções de que eu deveria ser jornalista, visto que parecia uma das profissões mais agradáveis, pois além de adorar a leitura e a escrita, minha curiosidade e revolta não eram apenas traços da adolescência, eu sabia que os carregaria para sempre comigo.
Passei na seleção e com todo o apoio e incentivo familiar me mudei para Balneário Camboriú no mês seguinte. Eu nada conhecia de gastronomia, sabia cozinhar alguma coisa, claro, adorava comer e não tinha medo de aprender. As primeiras impressões foram fantásticas, foi paixão à primeira vista, amor ao primeiro toque e profunda admiração ao primeiro aroma.
Esse incrível universo dos prazeres alimentares não me era estranho, no entanto, eu nunca o tinha observado tão de perto, tampouco tinha refletido sobre seus mistérios. Os livros muito me aproximaram das artes práticas, vasculhei toda a biblioteca e li tudo o que parecia interessante. Uma das leituras mais marcantes dessa fase foi “Carême – o chef dos reis e o rei dos chefs” de Ian Kelly, que descreve a trajetória e arte de Antoin Carême, personagem o qual guardo grande estima e admiração.
Lembrando disso agora, penso que talvez não tenha sido coincidência, escolhi o Carême Bistrô para fazer meu estágio. Localizado no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, o Carême é um belo premiado restaurante de comida francesa, possui 12 mesas e tem um serviço longo que não permite atender um número muito alto de clientes por noite. Passei três meses morando no Rio para mexer as panelas, picar os legumes, escolher as verduras, preparar risotos, caldos, cremes, mousses, e entre outras atividades, permanecer quase dez horas por dia na cozinha de Flávia Quaresma, eleita chef do ano de 2007. Flávia se mostrou uma profissional mais que admirável, competente e humana, tenho grande respeito e admiração não apenas por ela, como também por toda a sua equipe que muito me ensinou.
Para expandir meus horizontes desejei saber mais, conhecer outros tipos de cozinha, mesmo que seguindo a mesma linha de cozinha francesa, fui estagiar no Sofitel, um dos hotéis mais luxuosos do Rio de Janeiro, sob o comando do conceituado chef Roland Villard. O mais distante de um bistrô deveria ser um hotel, grande, com muitos funcionários, muitos clientes ao mesmo tempo, centenas de quilos de matéria-prima chegando diariamente... enfim, foi como o esperado, muito diferente de tudo o que eu tinha conhecido até o momento.
Passei por todas as cozinhas do hotel e aprendi muito com os sub-chefs e humildes cozinheiros, egressos dos quatro cantos do país. Por dois meses consegui cumprir a maratona a qual me propus no início dos estágios, trabalhar das 9 às 15 horas Sofitel, pegar o ônibus 434 em Copacabana e descer perto do Carême, caminhar algumas quadras e ver o sol pelas segunda e última vez, pois as 16 horas eu entraria no Carême, onde eu terminaria meu dia assim que saísse o último cliente e a cozinha estivesse limpa, ou seja, depois da meia-noite.
Foi exaustivo, mas valeu a pena cada segundo. Só no Sofiltel, durante o primeiro mês eu percorri as cozinhas do café da manhã, garde manger, açougue, cozinha do bar da piscina, restaurante Atlântis, cozinha central, padaria e a premiada confeitaria do chef Dominique Guerran, que faz a melhor sobremesa de restaurante de hotel do Brasil, segundo a revista Gula, 2007, além dos demais prêmios já recebidos, ele trabalha com chocolate como poucos no país e faz doces incrivelmente belos e saborosos.
No último mês de estágio tive uma rotina mais tranqüila, tendo concluído o estágio no Carême, pude dedicar mais tempo ao hotel, nesse momento trabalhei na cozinha do Le Pre Catelan, o mais belo e caro restaurante que tinha conhecido, também premiado como melhor restaurante francês e melhor restaurante de hotel. Aproveitei também para conhecer mais a fundo a Cidade Maravilhosa e fazer coisas que só uma metrópole permite, como visitar museus, exposições, cinemas, concertos, ou seja, manter uma agenda cultural bastante agitada.
De volta à Universidade, não eram apenas histórias para contar, além das fotos esses meses deixaram uma marca em mim, foi no estágio que dei os primeiros passos da minha carreira profissional, e eu gostei muito disso. Então vieram os trabalhos acadêmicos, relatórios de estágio, projeto de pesquisa e banca prática.
Para o projeto de pesquisa eu escolhi como tema Cartas de Vinho dos restaurantes de Balneário Camboriú, o projeto se desenvolveu com muita leitura, pesquisa e entrevistas, que me trouxeram conclusões a respeito do mercado de vinhos e da importância dessa bebida junto à alimentação. O projeto foi trabalhoso e apesar dos percalços, bem sucedido.
A fase mais dramática veio logo em seguida, a banca prática, onde o aluno deve fazer uma releitura de um prato do estágio e apresentá-lo a uma banca avaliadora. Apresentá-lo significa preparar o prato, do início ao fim, falar sobre ele, se apresentar, empratar e fazer com que a produção seja pelo menos suficientemente bonita, saborosa e bastante elaborada. Minha produção foi Degustação de Sopas, onde apresentei mini porções de vichysoise perfumada com trufas, sopa de cebola em crosta de massa folhada, sopa de tomate com queijo chabichou e borsch com chantilly salgado, tudo guarnecido de croutons de nata e queijo.
Parecia bastante complexo para quem lesse e bastante simples para mim, apenas sopas! Mas as coisas fugiram do controle e por falta de planejamento, experiência, jogo de cintura e organização minha banca foi um desastre total, com direito a crosta de massa folhada afundando na sopa, croutons queimando no forno e um creme de leite que teimou em não virar chantilly. A banca entrou em conselho e permitiu que eu refizesse minha prova, com mais algumas correções. Uma das semanas mais longas da minha vida se passou entre panelas, livros e verdureiros, noites mal dormidas e tardes fatídicas se intercalavam com desespero, medo e coragem.
Na véspera da prova preparei todos os meus caldos e adiantei tudo o que era possível adiantar, no dia da banca cheguei cedo e fui tomada de uma força divina, pois já estava cansada e vencida, temendo uma nova derrota acompanhada de humilhação, eu tinha muito medo. Mas fui forte, não fugi nem abaixei a cabeça, vesti meu uniforme como quem se prepara para guerra, amarrei o avental e dobrei as mangas com um suspiro de coragem, entrei na sala e apesar de manter as mão trêmulas do início ao fim, fiz tudo o que deveria fazer, explanei sobre o prato, a justificativa da escolha, a história das sopas, demonstrei as técnicas, cuidei das cocções e tudo correu no tempo exato, não faltou nem um minuto, montei e apresentei uma produção colorida, bonita, aromática e atrativa. Passei! E isso era o que importava, mas ouvi com muita atenção os comentários dos professores, um deles guardarei comigo para sempre: “a sua banca foi a prova de como (não)funciona uma cozinha sem planejamento e organização, e eu espero que você tenha várias provas como essa na sua vida, pois é dessa maneira que vem o aprendizado e o crescimento”. Ele tinha razão, eu cresci, aprendi que o que parece derrota pode ser apenas uma chance de ver a vida por outro ângulo, aprendi a ser mais humilde e ter respeito pelos que parecem menos capazes.
Uma parada para respirar! Fui para a casa dos meus pais pedir conselhos e desfrutar daquele clima familiar que me faz tanta falta. Eu tinha acabado o curso de Chef e precisava decidir se iria encarar o mercado de trabalho ou continuar estudando. Recebi convites para trabalhar em alguns lugares bastante interessantes assim que peguei meu diploma, mas decidi seguir na academia, me matriculei no Bacharelado em Gastronomia e devo me formar em dezembro de 2009. Percebi que estendendo por mais um ano e meio minha vida acadêmica eu tinha muito a ganhar e nada a perder, teria chances de ser uma profissional mais completa e aumentar meu campo de atuação se dominasse técnicas de administração, planejamento de ambientes, custos, cardápios, economia, marketing...
Acredito ter feito a escolha certa, o curso não tem deixado a desejar. Logo, aproveitei para realizar outras atividades, curtas ou longas, temporárias e descomprometidas, desfrutar dessa fase, estudar e viajar. Estou aperfeiçoando meu francês, já que pretendo ir à França assim que concluir a faculdade, além dele, falo espanhol e me matriculei num curso de inglês. Assim que possível coloco uma mochila no ombro e vou conhecer um pouquinho da América Latina.
A nova rotina acadêmica me permitiu ver a gastronomia de outra maneira, tenho estudado matérias que não imaginava serem tão interessantes, abrir livros de design e arquitetura não é mais uma aventura e sim uma necessidade, assim como acompanhar a economia mundial, taxas de juros, crescimento e por aí vai. Agora estou desenvolvendo mais um projeto, o trabalho de conclusão de curso, que consiste em montar uma empresa de A e B, real e, se possível, viável. É preciso fazer pesquisa de mercado, compra (fictícia) do terreno ou imóvel, levantamento de custos, desenvolver cardápio, cartilha dos colaboradores, manual de treinamento, enfim, é um trabalho bastante completo que habilita os bacharéis a trabalharem com consultoria nas mais diversas áreas de alimentos e bebidas, tanto em produção como serviço e venda. O projeto que estou desenvolvendo com meu grupo é uma cervejaria em Rio Negro, uma empresa viável e com grandes chances de sucesso.
Ao longo do ano participei de eventos ligados a gastronomia, workshops, aulas shows e palestras, dentre eles o evento da Costa da Esmeralda, em Bombinhas – SC e Prazeres da Mesa Ao Vivo, em São Paulo – SP, onde pude ver de perto grandes chefs, como Laurent Suadeau, francês erradicado no Brasil, pertencente à Gastronomia Clássica, profissional sério e duro, autor do primeiro livro indicado pela faculdade “Cartas a um Jovem Chef”, livro que só não me encantou mais que sua palestra.
Com essa adoração por viagem, fui para Bento Gonçalves – RS, conhecer o Vale dos Vinhedos e ver de perto a produção dos vinhos mais conceituados do país, naquele lugar lindo percebi mais uma vez a grandeza deste Brasil, que é apenas um país onde vários pequenos brasis estão contidos e se comporta diferente a cada 200 km.
Aos 20 anos tenho pouca experiência profissional, mas muita garra e disposição, sempre apaixonada pela magia dos alimentos me envolvi logo cedo com as panelas, fôrmas e fouets nas cozinhas de minha mãe e minha bisavó, que faziam tudo parecer simples, transformavam ovos, um pouco de açúcar, trigo e manteiga nos biscoitos mais gostosos, que perfumavam a casa toda.
Sempre que entro em uma cozinha procuro esse amor pelos alimentos, aquele cheirinho de biscoito que não esconde o valor da simplicidade. Então tenho construído minha carreira aos poucos, já trabalhei em quase uma dezena de lugares diferentes e devo ter ficado um mês (ou uma semana) em cada um. Em cada cozinha aprendi alguma coisa, vi um pouco do que deve ser feito, e do que não deve ser feito, fiz amigos e contatos.
Se perguntarem meu objetivo, respondo sem demora, cozinhar! E passar toda essa paixão para os pratos, satisfazer os comensais com o prazer que só uma boa comida pode proporcionar, trabalhar para aumentar a beleza dos alimentos, realçar os aromas naturais, buscar as texturas ideais, construir formas e alimentar o corpo com nutrientes e a alma com arte.
Minha ambição? O conhecimento! Desejo trabalhar com os grandes chefs para desvendar seus mistérios, descobrir ingredientes e combinações, aprender novas técnicas, desvendar segredos e lapidar meus conhecimentos para um dia poder atingir meu objetivo. Nunca vou parar de aprender, talvez um dia comesse a ensinar, pouco sei do futuro, conheço o lugar em que quero chegar e tenho uma idéia do caminho que devo percorrer, mas memórias são feitas de passado e meus relatos param por aqui.
domingo, 11 de julho de 2010
Contagem regressiva!
Agora vai!
















